Livro | Divagando | Romances eróticos


Meu primeiro contato com romances - e livros eróticos - foi aos 14 anos. Não sei se é a idade apropriada, mas acho provável que não (eufemismo). Acontece que um dia, passando por uma banca de jornal lá na Praia Grande, não lembro por que causa, motivo, razão ou circunstância, acabamos comprando eu uma revistinha da Turma da Mônica - porque para elas não tem idade - e minha irmã um romance Sabrina, chamado "O amor chegou".

Naquela época, apesar de não ser o tipo de livro que você sai por aí exibindo, era relativamente normal e aceitável que meninas e mulheres lessem, sem que houvesse grande constrangimento. Eram romances açucarados com uma pitada de erotismo que não chega nem perto dos exemplares de livros eróticos que se tem hoje em dia. Em retrospecto, e relendo alguns de meus favoritos da adolescência, percebi que esses "Romances Nova Cultural" são até bem leves e discretos. 

Eis que, em um dia infeliz de 2011 comecei a ouvir falar de "Cinquenta tons de cinza". A mulherada que não teve uma adolescência como a minha, começou a falar desse livro como se fosse a última gota de água no deserto. Sente o drama? Pois é.

Tanto falaram que eu resolvi ler. Tirando os absurdos óbvios de se achar normal um homem que você mal conhece persegui-la, rastrear seu celular, dar-lhe bebida alcoólica para transformar seu "não" em um "sim" com a desculpa de tirar suas inibições e exigir sua total e absoluta submissão sem oferecer nada em troca além de "eu" - palavra do Grey, não minhas -, não achei aquele livro nada demais. Uma tia ficou desconfortável com as cenas de sexo. Uma amiga minha impressionada. Eu fiquei abismada com a escrita ruim e com a ideia de submeter minha vontade e personalidade a um homem.

No entanto, seja a contragosto, com um fio de voz discreto e olhar enviesado, temos que admitir que foi "Cinquenta tons de cinza" que abriu as portas do mercado editorial para os romances categorizados como New Adult e Literatura Erótica. É só ir em uma livraria que será fácil, fácil achar  romances apimentados para todos os gostos. Ou quase todos os gostos...

Sou a favor que as pessoas sejam e façam o que bem entendam, desde que a liberdade de alguns não interfira na liberdade dos outros. Portanto, sempre fico muito puta quando um idiota vem me dizer que livros eróticos são para mulheres mal comidas e, pior, que elas precisam que um homem de verdade as peguem de jeito.

Quando saiu o primeiro trailer de "Cinquenta tons de cinza", não importava qual site eu acessasse, invariavelmente um babaca estava lá dizendo que as leitoras queriam apanhar, que era uma literatura podre e que estavam enchendo as cabeças de besteira (para não citar o que já foi dito no parágrafo anterior). Sem querer tomar partido desse tão falado livro/filme, mas vamos com calma, amigo.

A justificativa aqui é a seguinte: se a mulher gosta de um livro em que o homem é um dominador, naturalmente ela irá querer um homem que seja dominador. Por essa premissa, posso presumir que um homem que assiste a um filme pornô com uma secretária que dá para todos os clientes da empresa que ela trabalha, quer uma mulher que dê para todos os homens que encontra pela frente.

Para os babacas das "mal comidas" algumas considerações:

Primeiro: respeite a inteligência das mulheres.
Segundo: boa sorte para encontrar uma mulher que se interesse por alguém que não dá a mínima para os desejos sexuais dela.
Terceiro: o que eu leio não é da sua conta, da mesma forma que o que você assiste não é da minha conta.
Quarto: mulheres têm tanto direito de desenvolver a sexualidade delas quanto os homens.
Quinto: fale apenas do que você entende, porque mulheres e livros eróticos, obviamente não está no seu repertório.

Desde muito jovem eu percebi que tinha uma gigantesca diferença entre a maneira como são criados homens e mulheres. Para resumir a história, vou me focar apenas nas questões referentes à sexualidade.

Sempre foi muito mais natural falar sobre a sexualidade masculina. Masturbação, filmes e revistas pornográficas eram assuntos que sempre vieram acompanhados da ideia de que, para o homem, crescer e se desenvolver como um ser viril era natural e desejável. A mulher, por outro lado, sempre teve que reprimir seus impulsos, pois uma mulher que vive de acordo com seus desejos é uma mulher de vida fácil.

Está tudo errado.

Com o crescimento dos livros eróticos e o espaço que eles vêm ganhando nas livrarias, com vários exemplos de autores antes independentes que estão começando a lançar livros físicos no mundo todo, essa discussão se tornou mais importante. O que antes era tratado como uma pequena aventura feminina no mundo do erotismo, com os inofensivos livros de bancar, o assunto está começando a incomodar.

Não deveria ser uma boa coisa que a mulher esteja descobrindo que está tudo bem sentir desejo? Não deveria ser uma boa coisa a mulher descobrir o que a atrai e o que a incomoda? Não deveria ser uma boa coisa a incrível descoberta de que mulheres gostam de sexo tanto quanto os homens? Exatamente na mesma medida! Não deveria? O que há de errado com esse mundo?

Como parece ainda haver um longo caminho a ser percorrido, vou deixar mais algumas observações  e encerrar o assunto. Por ora.

É importante que as pessoas saibam que não é porque lemos livros eróticos que

a) Somos fáceis, vulgares e precisamos de Deus no coração;
b) Somos ninfomaníacas e precisamos de tratamento;
c) Vamos transar com o primeiro homem que aparecer, porque precisamos de um que nos pegue de jeito;

***

P.S.1: A opinião discutida nesse texto é minha, de maneira que me responsabilizo sozinha pela publicação e pelo conteúdo.

P.S.2: Volto em breve com indicações ;)

Comentários

  1. Hehehe... Não é o material literário que faz alguém precisar de Deus no coração e sim a condição humana. Mas, cá entre nós? Eu fui diferente em tudo desde a infância e não me envergonho em dizer que meu primeiro beijo foi movido por sentimento e não por desejo, e que foi aos já completos 20 anos, quando a média hoje em dia é 11, um dos motivos pelos quais a minha opinião é "café com leite" mas a ideia de uma mulher sem libido me é tão estimulante quanto um quadro sem tela. E olha que mesmo uma tela em branco poderia ser pintada.

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  2. Sua escrita melhora cada vez mais. Pegou tudo o que leu sobre o assunto da reprimida sexualidade feminina nos últimos tempos, e coisas sobre as quais temos conversado muito ultimamente e sintetizou tudo em uma crítica á literatura erótica contemporânea. Demais!

    Tenho pensado muito nesse assunto ultimamente, em como a hipócrita moralidade cristã trata de formas distintas o desenvolvimento sexual da mulher e do homem. Sendo uma cultura essencialmente patriarcal, vê como natural o amadurecimento sexual do macho, enquanto a libido feminina é um demônio a ser exorcizado. Para mim, a religião é o pior mal que os seres humanos já causaram uns aos outros.

    É um paradoxo no mínimo curioso que um código moral que se julga fonte de infinita bondade, seja a maior raiz da cultura do estupro!

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  3. Nossa, esse post ficou excelente!!!

    Sua questão é muito mais profunda do que a de muitas críticas ao romance: por trás do argumento do "cidadão de bem" que diz que o livro é mal-escrito, que os valores da história são esquisitos e inaceitáveis, existe uma opressão a todas as mulheres que lêem esse tipo de livro. Elas são as esquisitas, mal-comidas, e adoram se sentir submissas. Infelizmente, na maioria das vezes, a crítica ao livro não é separada da crítica ao leitor e vem aí todo um falso moralismo.

    Um falso moralismo que aceita e naturaliza as fantasias masculinas mais bizarras, por sinal.

    Precisamos de sua discussão! Parabéns!

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