Livro | Resenha | Herdeiros de Atlântida - Filhos do Éden 1 - Eduardo Spohr



Filhos do Éden não é - como o autor faz questão de enfatizar - uma continuação de "A batalha do Apocalipse, seu livro anterior, mas se passa no mesmo universo. Na verdade, a história deste livro se passa antes, nos tempos atuais, enquanto ABDA se passava lá para 2016 ou 2020 ou qualquer ano depois das olimpíadas no Rio de Janeiro.

O personagem principal da história anterior, no entanto, faz uma pequena - pequeníssima - aparição em um dos flashbacks, e logo some. Ainda bem, porque o heroísmo dele era meio enjoativo. Portanto, esqueça Ablon e Shamira, e dê espaço para Kaira, Denyel, Urakin e Levih.

Da esquerda para a direita: Urakin, Levih, Kaira e Denyel - Ilustrações oficiais.

Desde já quero deixar expressa aqui minha preferência pelo ofanin Levih. Ofanins são os anjos designados para cuidar dos homens e auxiliá-los, portanto, são os nossos queridos "anjos da guarda".

"Meu anjo da guarda, meu bom amiguinho, leve-me sempre pelo bom caminho"

Eu adorei o Levih. Não amei, porque, na verdade, começo a achar que o autor tem problemas ou má vontade para explorar os personagens realmente bons que tem na manga. Fica lá fazendo "a jornada do herói", utilizando suas teorias de construção de narrativas, criando lutas baseadas em seus jogos de RPG... E parece esquecer que alguns personagens secundários podem sustentar histórias de forma mais eficaz do que o herói que ele tanto se esforça para criar.

Os personagens criados por Eduardo Spohr são caricatos. Eles não têm a individualidade dos personagens de J. K. Rowling, ou de George R. R. Martin, nem, para ficar entre as inspirações conhecidas do autor, a força dos personagens de J. R. R. Tolkien. Porém, não dá para reclamar dessas caricaturas, pois desde sempre Spohr explica que seus personagens são anjos, não têm livre arbítrio, e possuem características básicas de sua casta.

Se o anjo é um ofanim, ele será dócil, protetor dos humanos e avesso à batalhas. Se ele for querubim, será simplesmente incapaz de fugir de uma batalha ou de um desafio proposto por outro querubim, e terá visão pragmática das coisas, razão acima da emoção. Se for um isshin, será ligado às forças da natureza, justamente por pertencer à casta que controla as forças da natureza e aquela responsável pela "arquitetura" do mundo. Se for um hashimalim - se o nome estiver certo - será apegado ao lado negro mal da força das missões angélicas. E, por fim, segundo meus conhecimentos sobre a mitologia do livro (e a mitologia dos anjos em si), se for um malakim, gastará todo o seu tempo e energia para estudar o mundo, fazer teorias e ser ainda mais racional que qualquer querubim perdido por aí.

Logo, o desenvolvimento dos personagens angélicos do livro fica limitado. O que não é propriamente ruim, pois há uma razão para serem assim. Os anjos são guerreiros de Yahweh (não sei como lê), cada casta tem sua função, que gira em torno de proteger e guiar a criação "mais perfeita" de Yahweh: o homem.

Kaira é uma anja que está presa ao mundo dos homens por uma ligação espiritual com uma menininha chamada Rachel (presa dentro de seu corpo, para ser exata), arconte (algo como capitã, comandante) de Gabriel; logo que aparece, com a memória estilhaçada, sem saber que era uma anja e muito menos que comandava uma equipe, não parece ser mais do que Shamira foi em ABDA. Coadjuvante. O livro conta a história de Kaira, enquanto ela se depara com querubins e demônios que estão atrás dela. Aos poucos ela vai se lembrando de quem é e qual era a sua missão quando foi mandada à Terra pelo arcanjo Gabriel.

Não sei bem o que foi, mas Kaira não me ganhou, como se esperaria de uma protagonista. Kaira se parece MUITO com uma coadjuvante, para ser chamada de protagonista e isso incomoda. Muito. Durante todo o livro, ou pelo menos a partir do momento em que Denyel aparece, o leitor tem a impressão de que é ele, não ela, o protagonista desse livro. E não estará errado, ele é, de fato, o personagem mais importante. É ele, inclusive, quem protagoniza a continuação "Anjos da Morte" (parece o título de um livro do Pedro Bandeira).

Denyel. Como a própria Kaira lhe diz duas ou três vezes, ele é um clichê. Não chega a ser chato, é um bom personagem. Prefiro ele a Ablon, embora ambos sejam caricatos. Acho que um bom termo seria "a caricatura de Denyel é melhor que a de Ablon" e ponto. É um personagem interessante, que integrou o grupo de querubins que foram mandados à Terra para viver junto dos humanos, aprender seus costumes, lutar suas guerras (pano de fundo do livro seguinte, diga-se de passagem). Ah, mas antes que possa haver reclamação sobre eu dizer que Denyel estará no próximo livro, não é bem um spoiler. No final de Herdeiros de Atlântida, não é possível saber o que houve com ele e o livro seguinte fala sobre as coisas que ele fez na Terra no período em que esteve nela.

Denyel é um típico canastrão dos filmes americanos, despojado, irônico, misterioso, recluso, sedutor... Tem até aquele sorrisinho 43 charmosíssimo! Ele é tão clichê que faz sentido a escolha do autor para sua personalidade e para sua narrativa. Apesar de previsível, um anjo que viveu décadas na Haled, a Terra como nós a conhecemos, tem todos os vícios, ou quase todos, do homem comum. É disparado o personagem mais bem construído dessa história. E é, por definição, clichê.

Urakin é um querubim e, bem, não há muito mais o que dizer sobre eles. São os guerreiros, as peças no xadrez dos arcanjos.

*

Outra coisa que incomoda: as últimas frases das pausas da narrativa. Imagine um capítulo, separado em algumas partes, que dividem a narrativa, fazem um salto curto no tempo ou mudam o ambiente, como um corte de cena no cinema. E imagine, no final de cada uma dessas pausas, uma frase de efeito para completar o pensamento. Tipo:

"Kaira seguiu pelo túnel, estava frio.
Era o túnel da morte."



Imagine, agora, alguém lendo o texto em voz alta. Fica piegas. E o TEMPO TODO, fica chato.

O autor prometeu, na apresentação, que esse seria um livro que responderia questões e que daria início a novas. De fato, é em Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida que finalmente descobrimos o que acontece com Rafael, o arcanjo patrono dos ofanins e amante dos homens. Porém - e acredite, estou cansada de usar "mas, porém, no entanto" nesse post -, o que o autor faz no livro chega a ser irritante. O tempo todo, quando tem uma oportunidade, começa a traçar todas as linhas possíveis para descrever as castas. Para explicar a ação de um personagem-anjo, tem que dizer que "por ser um ofanim, Levih era incapaz de pensar em matar Andril", "por ser querubim, Urakin era incapaz de recusar o desafio proposto nos olhos de Denyel" e blá. Explicar uma ou outra coisa do universo que ele tenta criar é uma coisa, mas insistir no didatismo durante quase toda a narrativa...

Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida tenta ampliar o universo apresentado em "A Batalha do Apocalipse", mas esbarra na repetição. Tentou fugir da reutilização de elementos já apresentados, mas acabou por ser inferior ao primeiro trabalho do autor.

De qualquer forma, Herdeiros de Atlântida é o primeiro volume de uma nova série. O segundo já tem nome e será "Anjos da morte", o que, pelo que entendi, deve ter mais flashbacks, dessa vez contando mais sobre o passado de Denyel, sobre como ele conheceu Urakin, e dará sequência ao misterioso epilogo do primeiro volume: afinal, o que Primeiro Anjo encontrou e porque é tão perigoso para Teth?

Por fim, o livro acabou me reconquistando no último capítulo, no epílogo e na prévia do prólogo do próximo livro.

*

[Atualizado]
PS: Descobri o maior problema do livro: A interação dos personagens. Absolutamente simples, sem sal e que te deixa com aquela sensação de que "já vi isso em algum lugar". As relações não empolgam.

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